Toma aqui um meme pra você se acalmar

Brasileiro é acostumado a tragédia.

A gente é tão acostumado a tragédia, mas tão acostumado, que de uns tempos pra cá a gente meio que decidiu parar de sofrer horrores com as coisas que a gente mesmo causa e começar a rir de tudo mesmo, na cara dura – porque, não se engane, terremoto não tem aqui, maremoto não tem aqui, quase nada de desastre natural tem aqui; o que tem aqui é tsunami de água de chuva ou de esgoto, quando entope tudo e a cidade vira um apocalipse por causa dos sacos de pipoca e das MOBÍLIAS que a gente joga no meio da rua achando que é um grãozinho de areia… aham.

Ah, tem eleição aqui também. E eleição no Brasil também é tragédia natural.  

Bom é saber que, agora, não estamos sozinhos, moçadaaaa! Temos a ilustre companhia dos Estados Unidos, que decidiram, neste novembro histórico, que o bilionário Donald Trump seria um bom presidente pra eles. Há! Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Seria cômico se não fosse trágico. Na verdade, foi cômico há 16 anos, quando o bom e velho Simpsons previu que o hollywoodiano aprendiz um dia subiria ao posto de homem mais poderoso do mundo sob o slogan “America, você pode ser minha ex-mulher”.

Não é mentira, tem foto.

simpsons

E ela hoje virou realidade.

Obviamente, como bons brasileiros que somos, começamos a produção de memes em série. O melhor, na minha opinião, esse aí da Sol soy-loco-por-ti-américa. Amor pela internet transbordando aqui…

Maaas, brincadeiras à parte, o negócio é sério.

De todas as coisas, existem algumas que podemos deixar de lado para focar no que realmente importa. Podemos descartar, por exemplo, a parte da Hillary ser mulher e de sustentar algum rancor médio-justificável de parte dos seus amigos nativos. Isso a gente releva porque não foi por isso que ela perdeu, e também não foi por isso que o chefão ganhou. Gênero não é mérito nem parte de currículo. Implicância e aversão também não são motivo de votar ou deixar de votar em ninguém. Se você não votaria no Trump apenas porque não gosta dele ou porque te dá uma certa náusea na alma toda vez que ele abre a boca, apesar de você não estar sozinho nem totalmente equivocado, só quero te dizer uma coisa: política não se faz na base da simpatia e da afeição. “Aaah, a Beyoncè vai votar na Hillary, então ela com certeza é a melhor opção, néam?”. Não, migo. Não.

A eleição do Trump abre mais do que um sinistro e pavoroso precedente. Acabou-se precedente. O negócio é na vera agora. Precedente era ele concorrer ao pleito para o cargo mais importante do PLANETA, ser escolhido como candidato do partido Republicano aaand disputar os votos das pessoas como candidato oficial. Vê-lo passar de candidato-chacota a presidente-eleito é algo que nem o Aurélio teria vocabulário suficiente para explicar. Precedente é que não é – talvez para o Bolsonaro que já tá todo-todo achando que a gente não aprendeu nada ainda. (#medodenãotermosaprendidomesmo)

Em artigo no The New Yorker, o jornalista David Remnick chama a eleição de “uma tragédia americana” e atribui a vitória de Trump a um profundo ressentimento por parte dos eleitores do País, em especial, pelos já oito anos de governo democrata, pela quase uma década com um afro-americano no poder. Aparentemente, a vitória das minorias, sejam elas étnicas, raciais ou de gênero, cansam aqueles que não fazem parte do grupinho. Ver negros ganhando voz cansa. Ver transsexuais ganhando espaço e respeito cansa. Ver mulheres conquistando seus direitos e falando abertamente sobre abusos sexuais cometidos por um candidato à presidência… isso cansa muito! Essa eleição nada mais foi do que um basta. Um enorme “chega, eu não aguento mais” assistir a essa cambada achar que é cheia de direitos. Foi um tremendo tapa na cara da sociedade que achava que uma mulher poderia ter um poder tão grande em pleno século XXI. Os votos recebidos pelo Trump são os pequenos tijolinhos que vão construir o próximo muro de Berlim. E a sensação foi comparável àquela que a gente sente quando o ônibus dá uma maldita de uma parada brusca DO NADA, você não tem onde se segurar, vagueia no vácuo por alguns segundos e acaba caindo no colo de um velho tarado. Não dá pra explicar, mas é um nojo e um sentimento de impotência tão grande, mas tão imenso, que… sei não.

Os fatos são tão simples que chegam a ser ridículos mesmo. De tão claros e transparentes, acho que os eleitores realmente preferiram acreditar nas mais mirabolantes teorias conspiratórias e ignorar o que estava bem na frente deles. O homem que foi eleito, um já senhor de 70 anos, branco e BIlionário, é acusado de abuso sexual por diversas mulheres – que, inclusive, já falaram abertamente sobre o caso, ainda neste mês de novembro, ele será julgado na corte norte-americana por fraudes relacionadas a sua suposta “universidade”, tem o respaldo do Ku Klux Klan (KKK), a seita da supremacia branca, e é DECLARADAMENTE xenófobo, racista, sexista, ignorante… etc etc etc etc

A Hillary tem lá seus erros? Tem, claro que tem. Mas todos superam, em muito, um único fato: ela não é Trump.

Nós, brasileiros, acostumados que somos a essas tragédias políticas – e o ano de 2016 foi particularmente perturbador – e que não temos diretamente nada a opinar sobre isso, temos, sim, muito a dizer… e a pensar.

Um vácuo na boca do estômago e aquela sensação pós-apocalíptica não me deixaram o dia inteiro. Foi como ouvir o William Bonner falar que o Armageddon já aconteceu, todo mundo foi embora pro céu (ou a alternativo) e que só eu fiquei pra ver o barraco comer solto aqui na terra. Foi tipo isso. Não foi bacana.

Democracia pode, sim, ser uma bosta. Principalmente quando aberrações desse tipo, que um dia foram tema de piada de um seriado na TV, tornam-se extraordinária e estarrecedoramente reais.

Nós nunca vamos saber quem foram todos os velados eleitores que escolheram ter esse homem como presidente. E isso é um pouco assustador também. O preconceito velado e a intolerância silenciosa, quando convertidos em algo palpável, podem se revelar as piores armas de destruição em massa que o homem jamais poderia pensar em criar.

O que você pode fazer? Bem. Se acalma, toma um meme e se prepara pra viver aqui nesse planeta mesmo, porque nós dois sabemos que você não tem verba pra sair daqui.

Ah! Netflix. Netflix e pizza ajudam muito. Pizza preenche vazios :T

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