Um sentido da guerra

A que cheira a guerra em Aleppo? Cheira a carabina, a fumaça de madeira, a corpos sujos, a lixo podre, a medo.

Por Janine di Giovanni

Não há fim visível para o que parece ser uma perpétua guerra civil na Síria, como deixou claro, nesta semana, o bombardeio a um hospital-maternidade em Aleppo. Desde que o conflito teve início, em 2011, mais de 11 milhões de pessoas foram mortas ou expulsas de suas casas. Ainda que estimativas apontem para 13,5 milhões de sírios ainda vivendo no país e dependentes de ajuda humanitária, indiferentes governos mundiais nada têm feito para aliviar o sofrimento destas pessoas, apenas suprindo variadas facções com armas mortais. O texto a seguir foi extraído do livro “The Morning They Came For Us” [“A manhã que eles vieram a nós”, ainda sem tradução em português], de Janine di Giovanni, uma corajosa repórter que cobriu os recentes conflitos no Oriente Médio e, antes disso, a guerra na Bósnia. Ela escreveu esse relato de Aleppo, em dezembro de 2012.

Guerra significa eterna espera, eterno tédio. Não há eletricidade, então nada de televisão. Você não pode ler. Você não pode ver amigos. Você se torna depressiva, mas não há tratamento para isso, e não há sentido em reclamar – todos estão tão ruins quanto você. É difícil apaixonar-se, ou melhor, é difícil manter-se apaixonado. Se você é um adolescente, parece que você parou no tempo.

Se você está com uma doença crítica – com câncer, por exemplo – não há tratamento quimioterápico para você. Se você não pode sair do país para se tratar, você fica e morre lentamente, e em tremenda dor. Doenças da Era Vitoriana retornam – pólio[mielite], tifo e cólera. Você vê pessoas muito doentes ao seu redor que pareciam estar em perfeito estado de saúde quando você as viu durante os tempos de paz. Você ouve pessoas tossindo todo o tempo. Todos tossem – por causa da poeira dos prédios destruídos, pelas doenças, pelo frio.

Quanto ao seu velho mundo, ele desaparece como a fumaça de um cigarro que você nem pode mais comprar. Onde estão seus amigos mais próximos? Alguns foram embora, outros morreram. Os poucos que ficaram não têm nada de novo para falar. Você não consegue ir às casas deles porque as estradas estão bloqueadas pelos postos de inspeção. Ou atiradores de elite disparam quando você sai pela porta e aí você foge de volta para dentro, como um caranguejo recuando de volta para o seu buraco. Ou talvez você saia no dia errado e um barril de bomba… cai perto de você.

São assim os tempos de guerra.

O aspecto acinzentado da cidade. As nuvens ficam muito baixas, só não baixas o suficiente para esconder os helicópteros do governo carregando os barris de bomba, que normalmente aparecem todos os dias nos mesmos horários, pela manhã e no fim da tarde, circulando por um tempo em altitudes de 13 a 16 mil pés, um pouco maiores do que pequenos pontos no céu, antes de despejarem suas cargas.

A que soa a guerra? Ao sibilar do cair das bombas, que só pode ser ouvido segundos antes do impacto – tempo suficiente para você saber que está prestes a morrer, só não suficiente para fugir.

A que cheira a guerra em Aleppo? Cheira a carabina, a fumaça de madeira, a corpos sujos, a lixo apodrecido, a… medo. Os entulhos nas ruas – os cacos de vidro, os estilhaços de madeira que um dia foram a casa de alguém. A cada esquina há destroços de edifícios que podem ou não cobrir os corpos enterrados logo abaixo. Sua antiga escola se foi, assim como a mesquita, a casa da sua avó e seu escritório. Suas memórias estão esmagadas.

Lá também estão os infindáveis campos de lixo. As salas que são frias como tumbas – tendo passado agora cinco invernos sem aquecimento – são tudo o que você conhece. Existem tantos apartamentos abandonados. Lembra-se daquela linda casa, como se parecia na época em que alguém ainda vivia lá? Sua bela vida de outrora está agora morta.

A poeira, a sujeira, o medo e a náusea. Tudo o que fora indispensável para a sua vida – pasta de dente, dinheiro, vitaminas, pílulas anticoncepcionais, raios-X, quimioterapia, insulina, remédios para dor. A gasolina custa 170 libras sírias [a moeda local] por litro. Hoje. Amanhã pode ser diferente.

É aí que, de repente, você pode se deparar com a estranha figura de um homem de camisa, a despeito do ar congelante, espremendo um suco de laranja para os sortudos com dinheiro. Laranjas? Você se pergunta quem são as pessoas que ainda têm dinheiro, e acaba pensando mal daquelas pessoas que você costumava confiar e conhecer bem. Mas, com o insistente tema da sobrevivência circulando pela cidade a todo momento, sua vizinhança, sua vida, você percebe que não conhece realmente as verdadeiras intenções das pessoas.

A guerra é a esquina perto da Cidade Velha onde as pessoas se alinham com garrafas PET para comprar uma pequena quantidade de gasolina no mercado negro. A guerra é o hospital em ruínas, Dar al-Shifa, bombardeado em novembro de 2012, e que ainda cheira a carnificina, nos corredores por onde um dia passaram macas e onde médicos em uniformes e luvas de borracha um dia caminharam. Agora é uma pilha de blocos de cimento e concreto, azulejos e vidros estilhaçados – uma concha exposta sob o céu cinzento.

A guerra é uma cápsula vazia na rua, a fumaça das bombas subindo em cogumelos, é o aprender a determinar que ruído indica que tipo de bomba. Às vezes você acerta, às vezes não.

A guerra é a destruição, o esqueleto e os ossos descobertos de uma outra vida.

De “A manhã que eles vieram a nós: relatos da Síria”. Copyright c 2016 por Janine di Giovanni. Impresso com permissão da editora. Todos os direitos reservados.

 

Tradução livre. Texto original em inglês pelo link: https://harpers.org/blog/2016/05/a-sense-of-war/
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s