As crianças sírias são uma responsabilidade do mundo

Omran Daqneesh, o pequeno sírio de cincp anos, senta na parte de trás de uma ambulância após ter sido ferido durante um ataque aéreo em Aleppo, Síria, em 17 de agosto de 2016. Nós não podemos olhar para o outro lado novamente.

O pequeno Omram Daqneesh, cinco anos, sentou silenciosamente dentro de uma bem iluminada ambulância. Uma fuligem cinza o cobria dos pés à cabeça. A parte esquerda do seu rosto estava coberta de sangue. O seu olho esquerdo estava caído, quase fechado do inchaço. Ele olhava ao redor atordoado quando sentiu o lado da cabeça e, notando o sangue, tentou limpá-lo na cadeira. Semana passada, a casa de Omran foi atingida por um ataque aéreo. Ele foi retirado dos escombros pelos trabalhadores humanitários e levado para um posto médico. A enfermeira que atendeu aos ferimentos de Omran disse que ele não saiu do estado de choque até ver os pais, que sobreviveram, chegarem ao hospital. Foi aí que ele chorou. Seu irmão de 10 anos, Ali, havia morrido em decorrência dos ferimentos.

Nós temos visto as notícias e esquecido, ouvido as histórias e seguido em frente. Talvez valesse a pena lembrar o que exatamente levou a essa crise global dos refugiados, a pior desde a Segunda Guerra Mundial. Começou no início de 2011, quando forças do governo em Daraa prenderam e torturaram um grupo de jovens por estarem rabiscando slogans revolucionários. Protestos irromperam, e as forças de segurança, num lapso de insanidade, abriram fogo, matando muitos. A inquietude cresceu na Síria quando milhares tomaram as ruas. Um grupo de oposição formou-se. Nascia ali uma guerra civil.

Conforme a guerra se desgastava, os crimes contra a humanidade começavam a vir à tona. Nossas mentes não conseguiam entender que tipo de pensamento poderia justificar o despejo de barris explosivos e armas químicas em áreas ocupadas por civis, com a destruição até de hospitais que tratavam os feridos. Assim como nossos corações também não conseguiam compreender que tipo de mau incitava um novo grupo insurgente, chamado ISIS [ou Estado Islâmico], a decapitar, apedrejar e queimar vivos milhares de homens, mulheres e crianças sírias.

Depois, quando achávamos que não poderia ficar pior, a onda da crise dos refugiados inundou o mundo. Mais de 4,8 milhões de sírios – perto de metade deles crianças – foram deslocados de seus lares ancestrais, forçados a viver em lotados e inapropriados campos de refugiados ou a enfrentar os elementos da natureza na busca pelo refúgio. E, enquanto surgiam os relatos dos muitos que sofriam nos campos e dos que se afogavam na travessia pelo mar, os bombardeios em Aleppo e em outras dezenas de cidades sírias continuavam a chover.

Cinco anos depois, mais de 470 mil vidas foram perdidas. E quando já não parecia que nada mais nos poderia surpreender, aí então nós conhecemos os pequenos Aylan Kurdi, 3, e Omran Daqneesh, 5.

Não estando ele estendido nas areias de uma praia turca, você poderia pensar que Aylan estava apenas dormindo. Com a cabeça descansada sobre a bochecha direita, seus braços próximos à barriga, o joelho esquerdo dobrado como que tentando achar uma posição confortável: toda a cena parecia assustadoramente serena. Aylan afogou-se no ano passado, enquanto ele, seu irmão e seus pais tentavam atravessar até a Grécia em um bote de borracha. Somente o pai de Aylan sobreviveu.

A imagem de Aylan viralizou no ano passado, e a de Omran, na última semana, fazendo de uma crise que havíamos esquecido – novamente – um novo trending global. Esses dois garotos – num momento em que já se acumulam anos de evidências sobre violações aos direitos humanos, estudos reveladores de detalhes gráficos da tortura, relatórios de recém-nascidos que morreram sufocados porque tiveram seu estoque de oxigênio cortado pelos ataques aéreos e inúmeros de casos de crianças queimadas vivas e feridas por estilhados – conseguiram abalar o mundo quando nada mais poderia.

download

Aylan e Omran penetraram nossos corações porque desnudaram um conflito remoto por sua distância e obscuridade. De repente, não estamos mais olhando para um corpo a 5 mil milhas de distância ou para um número ou estatística, estamos olhando para uma criança real, que poderia ser a nossa, sentada numa cadeira laranja, muito atordoada para entrar em pânico ou chorar, ou deitada de barriga para baixo numa praia, tão delicadamente que a morte se confunde ao sono. As fotos dessas crianças resumem os inexprimíveis horrores desse conflito de um modo que fatos ou estatísticas não conseguem. Olhá-los é olhar toda a história desta guerra – o desespero de um pai, o coração partido de uma família – e como humanos, nós não podemos deixar de olhar novamente.

Todos os dias, mais famílias como as de Aylan tentam cruzar a fronteira, enfrentando desertos e mares, ou, como a de Omran, vêem-se de repente enterrados debaixo dos escombros do que um dia havia sido a sua casa. A situação nas cidades sitiadas de Aleppo, onde as crianças correspondem a 35% das baixas, continua a piorar conforme os estoques de comida decaem.

Um médico sírio-americano que tem viajado para Aleppo escreveu recentemente: “Todas as vezes que trabalho lá eu trato uma criança frequentemente tão ferida e traumatizada que eu me questiono se os que sobreviveram não seriam menos sortudos do que os que morreram”.

As imagens de Aylan e Omran nos puxam de volta. Eles capturam momentos singulares dos efeitos da guerra, mas eles não são únicos – centenas de milhares de crianças sofreram e continuam a morrer como resultado do conflito.

Os Estados Unidos e outras nações precisam agir urgentemente para parar o sofrimento. Nossos representantes oficiais precisam continuar a pressionar por um processo de paz na Síria enquanto garantem a total cobertura de fundos para os apelos humanitários. Os países também possuem uma significante oportunidade, neste mês de setembro, de fazer seus pedidos no Summit de Refugiados do Presidente Obama, em 20 de setembro, para que mais refugiados tenham acesso à educação e ao direito de trabalhar.

Nós não podemos mais esperar e hesitar. Muitos mais irão morrer. Essas crianças são nossa responsabilidade.

 

Tradução livre. Texto originalmente publicado em inglês no site: http://time.com/4468698/syrian-children-world-responsibility/

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s